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MADEIRA E COR


João Galvão nos provoca o prazer de ver, de admirar e partilhar dos seus quadros, cujos formatos são comuns e já fazem parte do nosso universo cognitivo. Derivam de recortes perfeitos, retangulares, resultantes de ângulos de noventa graus; e possuem portes alterados – grande, médio e pequeno – mediando desde quarenta centímetros até um metro de meio de altura. Todos são pintados: de negro, azul forte, branco total; verdes, e até vermelhos, cobrem algumas das laterais das formas componentes das obras. A madeira é o suporte principal dos quadros e das cores constituem outro, sendo ambos característicos do trabalho do artista. Apenas com a madeira e as cores ela cria composições tonais muito tocantes, nos levando ao bem-vindo concerto da criação.

É sempre bom abandonar a postura frígida de se ver um quadro pois, no confronto com a obra de arte, para alguém armado com as posturas formais nunca será possível captar a criação construtiva do artista. A madeira e a cor: ambas são partes deste universo, uma vez que predestinadas pela materialidade e pela natureza e, portanto, abertas à possibilidade da volição e dos seus próprios destinos.

Ao escolher um determinado material de trabalho, o artista – no caso, Galvão – dá preferência à madeira e, de certo modo, lhe confere o poder de intervir na criação da obra. O poder teleológico do material, finalidade incorporada à própria matéria, sugere ao criador alterações e caminhos adequados para o seu uso – aqui, no caso, quase que reivindicando partilhar da criação artística. Este fenômeno não transita no campo dos milagres, mas na relação sensível com a matéria. Artista e matéria, um conduz o outro até a criação.

O poder de criação de Galvão funda-se na intervenção racional do desenho e nas respectivas formas e posições da madeira, uma vez disposta no espaço bidimensional do quadro. O artista é sempre sensível e reversível ao diálogo com a matéria. Seus quarenta anos, ou mais, de eterno diálogo com as cores e as madeiras comprovam o seu exercício lento e conspirador com a matéria/madeira, companheira de sonhos e de realizações do alto nível artístico. Em diversos formatos – circulares, quadrados e/ou paralelepipedais – distribuídos na superfície plana do quadro, cada um dos blocos de madeira segue um alinhamento, justapondo-se um ao outro e proporcionando possíveis leituras, da esquerda para a direita ou vice-versa. Os blocos criam grande tensão gráfica, construindo um alfabeto plástico; e embora pintados de uma ou mais cores, mostram tonalidades variantes como conseqüência da maior ou menor luz que recebem. Sem nenhum espanto se comprova que a incidência da luz (sobre os blocos de madeira) e a movimentação do nosso olhar promovem o movimento virtual da composição dos quadros. Estas obras têm a virtude de serem sempre diferentes. Cada pessoa tem a sua própria maneira de ver e de perceber o mundo.

Apesar do artista pintar os blocos de madeira dos quadros à maneira de muitos artistas dos tempos antigos – egípcios, gregos, etruscos, romanos – que coloriam as obras, mesmo em mármore, para a defesa do material utilizado, a obra o artista nada tem a ver com questões de qualidade do material empregado. Galvão se serve sempre da excelente qualidade de seus instrumentos de trabalho e da sua impecável e magnífica manipulação dos materiais. Sua pintura tem a virtualidade da representação da escultura, a qual é construída com o mínimo de matérias, de engenho e arte: somente com a madeira e a cor, constrói obras da optical-art, estimula o olhar distraído, o balé visual descontraído, formas e cores em constante movimento. Enfim, eis o olhar do homem e as suas espantosas virtualidades, na sua grande maioria desconhecidas. Faz parte do trabalho de Galvão a magnífica série, datada de 1980, de obras construídas com as cores naturais da madeira e merecedoras de destaque especial, cujos blocos têm formatos diversos e são suportados por um anel elíptico na base. Outra série muito especial dos trabalhos Galvão vem dos anos 1987 e 1998, quando o artista faz as esplêndidas construções negras. E ainda outra, já em 2001, em que os recentes quadros brancos repercutem ritmos e fanfarras saídos dos blocos geométricos da pintura. As formas bailam aos nossos olhos. E quase fogem do quadro.

Vale lembrar a força indiscutível das três obras negras, incluídas no final de 1998 no acervo artístico-cultural do Palácio do Governo do Estado de São Paulo. Ao ver os quadros negros postos nos grandes muros do Palácio Bandeirantes, me dei conta da força criadora da pintura e da organização formal de João Carlos Galvão.

A arte comove, e não é sempre que nos deparamos com as obras da envergadura das deste discreto artista plástico Galvão – carioca, nascido em 1941 e que, já em 1967, partilha brilhantemente da IX Bienal Internacional de São Paulo. Isso faz tempo para a Bienal e quase nada para artistas que, como ele, continuam ótimos, lindos e criativos.

 

OS CRÍTICOS E A OBRA DE GALVÃO

TRANSFIGURAÇÃO


Embora decorridos trinta anos, permanece profunda, atual e viva a observação do crítico Walmir Ayala sobre a mostra de Galvão realizada na Galeria Bonino, em 1972, quando levantou a questão de que, minimamente, o artista constrói os alicerces plásticos e fundamentais de suas obras “com a geometria, o quadrado, o reflexo (cor) e a sombra (ilusão de cor)”, fugindo da simetria e exaltando as sombras das cores para criar a transfiguração. Queira-se ou não, há algo de místico e profundamente sensível na obra deste artista. Ele lida com madeira buscando extrair e reinventar mil e uma formas, todas produzidas com um único desenho e com um ínfimo recorte. Trata-se de uma arte mental, ainda segundo Ayala, que produz “harmonia e dinamismo”. E, ao final do texto crítico, ele se refere ao jovem João Galvão lembrando Moholy-Nagy: “A minha crença é de que as formas matematicamente harmoniosas estão repletas de qualidade emocional, e de que elas representam o perfeito equilíbrio entre a sensibilidade e a inteligência”.

 

BOX-FORM


A obra de Galvão mereceu crítico Jayme Maurício observações sutis que definem a obra do artista – agora em 1974, na Galeria Bonino – como “formas de caixas”. De certa maneira, a idéia de caixa sugere uma construção de madeira “planejada ainda dentro de grande rigor, mas já com reflexos estruturais mais acentuados”. Definitiva, porém, é a performance do artista vista crítico, quando escreve: “O ritmo, a progressão, o alinhamento, a regularidade, a lógica interna e a estrutura como possibilidade de jogo tornaram-se seus parâmetros.”

 

PROMENEURS SOLITAIRES


O refinamento de Silviano Santiago ao analisar a exposição de Galvão no Shopping Cassino Atlântico, em 1982, surge na abertura do texto do catálogo ao afirmar que “o que sobra do trabalho humano é útil”. Uma obra que leva a designação de caixa, sutilizada pelo termo em inglês – box, de repente assume a bendita função de guarda de algo que sobrou, mantendo, porém, a dignidade indiscutível de sua performance. Esta imagem de “sobra” o crítico atribui aos quadros de Galvão (“sobra salva”) através da criação artística. Mais adiante, ele nos convoca a todos “para olhar, sentir, cheirar e ouvir os sons, e para experimentar o gosto da madeira, ou seja, das peças/palavras, através dos silêncios da escritura de Galvão como se fôssemos promeneurs solitaires, em devaneio e prazer pelo que resta, na metrópole, da natureza”. Lindo!

Radha Abramo
São Paulo – 2001





"Je vous félicité chaleureusement pour la qualité de vos créations et le sérieux de vos recherches."

V. Vasarely
Paris - 1973




Galvão é um purista que introduz a poética da cor numa linguagem ordenada, no quase metafísico e abusado angulo reto (“a reta conduz para o infinito”, disseram sem acrescentar que “ás vezes sem retorno”, como a curva). O velho problema razão-emoção permanece imbativel. Galvão cultivou Vasarely e sua luminosidade, Camargo e seu espírito construtivo. Nunca se afastou, entretanto, da beleza estética como salvação, como afirmou um gênio literário, Dostoievski, exagerado por um francês “a ciência é a estética da inteligência”. E a pintura? Dicas, pedras-de toque-provocações para melhor ver o trabalho de Galvão. No purismo e no rigor formal de sempre, de seu bem planejado bunker de Mury, o pintor olha e capta o universo interplanetário, cada vez mais infinito e humaniza paredes frias e vazias das arquiteturas. Segue racional-humanista, procura harmonias. Esse carioca persistente me faz lembrar da unidade do homem e sua obra. Estas aglutinações puristas de um pulsar de cores irradiantes e bem ordenadas.Nunca foi da índole deste profissional, mergulhar em técnicas linha mestra-escola em resultados criativos.Não seria com um profissional da competência de Galvão que eu agora mudaria. É um mutante lúdico ordenado, comprometido com ele mesmo, preferido dos arquitetos, inclusive em seus relevos de cimento ou de madeira, seu vocabulário cromático luminoso. Importante é que estes trabalhos criativos, fecundam o velho analista, fazem pensar, despertam a vontade de agir e trabalhar. Sem comparar. Há na criação de Galvão uma qualidade que vai além do sentido etmológico, objeto qualificado para sua função, decorar, e provoca o sentimento mais interno e subjetivo, seja,sem as implicações do século dezenove, e eleva a área mais profundas da poética, do psiquismo, da durabilidade e da convivência elevada. Permanência e transcência, imaginação e criação. Galvão pode estar sugerindo o rompimento de algumas barreiras puristas esclerosadas (o pensamento racional muito reto pode conduzir o homem àquele calo no cérebro do mundo, o tal Cosmic Corn). Quebre-se toda rigidez e aceite-se todas as combinações possíveis.

Jayme Maurício
Rio - 1997




"(...) Galvão est un puriste qui introduit la poétique de la couleur dans un langage ordonné, dans un angle droit presque métaphysique et abusif ("la droite conduit à I'infini," a-t-on dit sans ajouter "parfois sans retour" comme la courbe). (...) C'est un mutant ludique ordonné, en compromis avec lui-même, préféré des architectes, y compris dans ses reliefs en ciment et bois, son vocabulaire chromatique lumineux. L'importat c'est que ces travaux créatifs fécondent le vieil analyste, font penser, éveillent le désir d'agir et de travailler. Sans comparer. II y a dans la création de Galvão une qualité qui va au-delà du sens ethnologique, objet qualifié par as fonction, décorer, et provoque un sentiment plus intense et subjectif, soit, sans les implications du dix-neuvième siècle, et élève le champ plus profond de la poétique, du psychisme, de la durabilité et de la conviavialité élevée. Permanence et transcendance, imagination et création.
Galvão suggère peut-être la rupture de quelques barrières puristes sclérosées (la pensée rationnelle très droite). II faut rompre la rigidité et accepter toutes les combinaisons possibles."

Jayme Mauricio
Beyrouth - 1997





THE SOUL OF A GEOMETRICIAN


“should I feign a hypothesis between no and yes?
regard myself anew in the mirror of perplexity?
do I retire within? I leave myself”

Haroldo de Campos1


Galvão exposes a good deal more than the body of his materials. He exhibits the machine of the world reconsidered. For over three decades, his work has revealed a geometrician’s soul inherited from the time of Aristotle, from the Op-constructropical experimenters, from Oiticica’s metaesquemas2 and the Concrete group of São Paulo.

João Carlos Galvão is back among us to rearrange desires, balance forms, re-invent meanings, and to claim what is his by right – his position as heir to the high-wire constructors of a felt geometry, long before the New Geometry.

A native of Rio de Janeiro who lives and works in Nova Friburgo, he has moved beyond geometry’s cold rationality and brought to it manners and caresses which could only be bestowed by an artist who possesses a joyous spirit. Hence these surprising results leap to our eyes which are weary of so much mediocrity; they burst forth in plays of light and shadow, high and low, depths and shallows, fullness and emptiness, absence and excess; exciting poems of form and color.

The volumetric shavings, overlaps, folds and arrangements are reminiscent of that other brilliant geometrician Amílcar de Castro, though Galvão actually dyes the physical material, thus perpetrating a progressive scale, the repeated beat of his work. Are these repetitions, repercussions or reverberations? Reverberated harmony might be one of the secrets of creative geometry and the key to this great artist’s art.

Galvão’s work reawakens the need for a responsible consideration of contemporary art. Begun in the 60s – the time of Bossa Nova, Cinema Novo and Concretism – the recognizable high points of his trajectory include his Parisian sojourn with Hungarian Victor Vasarely (1906-1996) and the outstanding Sergio Camargo (1930-1990), his acknowledged masters in learning to think in visual terms. His 1967 participation in the 9th International São Paulo Biennial was among the most memorable moments of his saga.

The present exhibition brings together work from various periods and phases, providing viewers with a rare opportunity to enjoy a craft well-wrought and a chance to see work engendered by precise calculation and generous feeling.

Form by form the blocks conform to a poetics of the gaze. Galvão continues to draw music from his material and its excesses to reveal a lode of forms, sensual notes and intoxicating aromas beyond the tactile possibilities which sharpen our bodily perception.

Among the festive painted reliefs and monochrome columns offered up to our gaze, Galvão provides comforting sensations, such as the successive serial excavations of unvarnished wood alternating between its natural tone and a vibrant, absolute Klein blue3. His acute visual perception is unceasing, even when other modalities or materials are used, as in his Vidrotil ceramic tile constructions or the white marble reliefs of a private residence on rua Suiça - proof that the artist imprints his own mysterious inner order upon the world. Yet his great passion continues to be the wood he knows so well, its fascinating reliefs true, tastefully tinted extracts of purity and harmony of form. As though he were rethinking the world while intentionally committing a few tiny mistakes so as not to arrive at the exaggeration conclusion of considering himself perfect!

Paulo Klein
São Paulo – 2004

www.pauloklein.art.br
Crítico de Arte
AICA/ABCA/APCA



1 CAMPOS, Haroldo. A Máquina do Mundo Repensada, São Paulo, Atelier Editorial, 2000.
2 OITICICA, Hélio. Metaesquemas, 1957 series.
3 In 1960, French artist Yves KLEIN (1926-1962) patented IKB (International Klein Blue).





Alma de geômetra


finjo uma hipótese entre o não e o sim?
remiro-me no espelho do perplexo?
recolho-me por dentro? vou de mim

Haroldo de Campos1


Galvão coloca à nu muito mais do que o corpo da matéria. Exibe a máquina do mundo repensada. Revela em sua obra, desenvolvida em mais de três décadas, a alma do geômetra herdada dos tempos aristotélicos, dos experimentadores Op-construtropicais, dos metaesquemas de Oiticica2, dos concretistas paulistas.

Este é João Carlos Galvão, novamente entre nós para re-ordenar desejos, equilibrar formas, re-paginar sentidos. E reclama o que lhe é de direito. A condição de herdeiro dos construtores equilibristas da geometria sensível. Muito antes da Nova Geometria.

Carioca que vive e trabalha em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, ele não tem se baseado apenas na dimensão fria e racional da geometria e empresta ao gênero maneiras e caríciasque só consegue emprestar o artista possuidor de uma alma feliz. Daí, este resultado surpreendente, que salta aos nossos olhos cansados de tanta mediocridade, irrompe do quadro, espalha-se em jogos de luz / sombra, alto / baixo, fundo / raso, cheio / vazio, ausência / excesso; excitantes poemas de forma e cor.

Reparo as aparas, refilos, dobras, ordenações de suas volumetrias e lembro-me de outro geômetra genial: Amílcar de Castro. Mas Galvão executa tingimentos na realidade física da matéria, perpetra em sua obra a escala progressiva, a batida repetida. Serão repetições, repercussões ou reverberações ? A harmonia repercutida é, pode-se admitir, um dos segredos da geometria criativa e a chave para penetrar a arte deste grande artista.

A obra de Galvão desperta a necessidade de se pensar a arte atual com responsabilidade. Iniciada nos anos 60 – tempo da Bossa Nova, do Cinema Novo, do Concretismo -, sua trajetória teve pontos altos de satisfação e reconhecimento, alguns encarados com naturalidade, como seu convívio parisiense com o húngaro Victor Vasarely (1906-1996) e com o excepcional Sergio Camargo (1930-90). Confessa que, com eles, aprendeu a pensar plasticamente. Outro bom momento, entre tantos de sua saga, foi sua participação, em 1967, da 9a. Bienal Internacional de São Paulo.

Obras de várias épocas e fases podem ser vistas juntas na presente panorâmica, ocasião rara para se apreciar um ofício bem exercido e conferir uma produção gerada com cálculo preciso e generoso sentimento.

Forma por forma, poética do olhar acomodada em blocos. Galvão segue extraindo música dos materiais, de seus excessos, para revelar os veios da forma, notas sensuais, aromas inebriantes, além das possibilidades táteis que aguçam a nossa percepção corporal.

Entre as festas que oferece ao nosso olhar, quadros com relevos e colunas monocrômicas, Galvão proporciona sensações confortantes, como quando a madeira, nua e crua, em sucessivas escavações seriadas, se alterna entre seu tom natural e um vibrante e absoluto azul de Klein . Ele não cede em sua aguda percepção visual, mesmo quando utiliza outras modalidades ou materiais, como nas construções executadas com pastilhas cerâmicas (tipo Vidrotil) ou nos relevos em mármore branco de uma residência da rua Suíça. Demonstração de que o artista imprime ao mundo sua misteriosa ordem interior. No entanto, seu encanto continua sendo a madeira, com a qual se relaciona com intimidade, oferecendo-nos relevos fascinantes, verdadeiros extratos de pureza e harmonia de formas, tingidos com bom gosto. Como se estivesse repensando o mundo e cometendo, de propósito, alguns pequenos erros. Para não chegar ao exagero de se imaginar perfeito!

Paulo Klein
São Paulo – 2004

www.pauloklein.art.br
Crítico de Arte
AICA/ABCA/APCA



1 CAMPOS Haroldo – A Máquina do Mundo Repensada/ Atelier Editorial / São Paulo 2000.
2 OITICICA Hélio – Metaesquemas, série de 1957.




O que sobra do trabalho humano é inútil.
Rolam pelo chão ociosos pedaços de madeira, com diversos formatos, cores variegadas e perfumes silvestres. Carpinteiro e marceneiro ficam com o filé mignon e o chão com a sucata. Mal sabem que tudo, tudo que é natureza é nobre. Isso lhes diz o artista. E continua: a condição do homem é que é discutível. Um animal arrogante que cedo descobre, graças ao dom da inteligência, que a sua virtude maior (o trabalho) e o seu calcanhar de aquiles (a busca do poder) se afirmam e perduram pela depredação da natureza. O homem econômico é essencialmente um animal predatório. Também o homem espiritual. Tendo descoberto ainda cedo que o seu semelhante é também irmão, o homem voltou a sua fúria para a natureza. A história de Caim, depois da sua morte, o exemplo de Caim é a busca do bem na “natureza” do mal. Tudo é permitido, até o fim dos fins, contra esse Satã substituto.

O que sobra do trabalho humano é útil.
Com uma sintaxe sóbria e equilibrada, Galvão inscreve no suporte as peças de madeira que rolavam ociosas pelo chão da serraria, peças que – como palavras- rolam indolentes pelo dicionário antes de serem utilizadas pelo artista. O léxico de Galvão é nobre, não pela sua condição atual, a sucata, mas por trazer na sua etimologia a nobreza do natural. A busca etimológica a que nos convida Galvão nos devolve, ao re-estabelecer valores, a antiga glória da natureza que foi pouco a pouco aviltada pelo homem. Nas acumulações de Galvão, o homem se redime do outro trabalho humano, o predatório, pelo trabalho artístico, assim como, já desde o século XVIII, ele se redimia ao compor, como parte da sua posse, o jardim. Devemos passar os olhos (as mãos, o nariz, os ouvidos, e por que não? a língua) pelas peças/palavras e pelos silêncios da escritura de Galvão como promeneurs solitaires em devaneio e prazer pelo que resta, na metrópole, da natureza. Enquanto não chega o apocalipse.

Silviano Santiago
Rio - 1982



 


Galvão es un pintor cuya obra, muy variada, a veces lo aparta de la pintura como, por ejemplo, en los trabajos presentados hoy a nuestra atencíon. el material de estos últimos, en afecto, es nuevo en arte. pues las pequeñas piezas que constituyen esse material son de madera cruda, marcadamente brasileña, y com diversas tonalidades. Gracias a ellas estamos también en contacto directo com los elementos de la naturaleza, sin duda de modo fragmentario, pero, también decisivo. cada una de esas piezas parece vivir. tenemos todavía el privilegio de verlas exactamente como son, sin adornos decorativos, sin la mínima preocupación figurativa y sin la mínima intervención del pincel – ausencia que no les ímpide animar el contenido de este conjunto de cuadros. y todo esto por tener esos trocitos de madera, colocados en relieve sobre los cuadros, configuraciones múltiples, componiendo pequeños cuadrados, rectágulos, triángulos y otras formas mucho menos indentificables, debidas a las impresionantes intuiciones y el saber creativo y poético del que las talló. así galvão prolonga en cada cuadro un clima que actúa en nuestro espíritu, en nuestra sensibilidad y en nuestra imaginación, transmitiéndonos una vez más algo de poder insustituible del arte

Roberto Alvim Corrêa
Buenos Aires - 1981




To glance around the Brazilian Centre Gallery and assume all of GALVAO’s woodeut panels are identical, is easy to do. On closer examination however, the 11 art works, though identical in shape, are all unique. Each is formed from over 100 different pieces of wood arranged in varying formats. One sculpture has a regular pattern repeated or all of the woodblocks arranged horizontally, another is totally irregular. One even close examination, it appears that some wood has come from chair arms or legs, skirting boards or picture rails. Unfortunately I was unable to determine how the works were assembled or the wood's country of origin though some of the darker pieces were unfamiliar to me.One wooden panel does stand out from the others (although all are unnamed) for it is hung upright rather than longways. The wood used for the work has been cut through the grain to produce a stripe effect that movers before your eyes. Eight ink drawings hang beside the sculptures and Galvao’s style is consistent in these, too.This is certainly na original form of art and I could imagine the woodcuts hanging pleasantly on the wall of a sitting room. All works are for sale and the exhibition runs until April 30.

Michael Darvell
London - 1986




“O concretismo é um movimento muito limitado. Não gosto desse negócio de matemática em arte. Se resolvo que um quadrado deve ser assim, eu o faço assim e pronto. Não tenho que explicar mais nada.” Com essa tomada de posição tão clara quanto radical, o carioca João Carlos Galvão, 33 anos, começa por (bem) definir sua própria obra. A esta altura de sua carreira, ela pode ser resumida em duas vertentes principais. De um lado, a fase mais antiga, nascida em Paris há seis anos, quando Galvão passou a ultilizar apenas placas de cor branca, superpostas a superfícies também brancas, porém com um pequeno espaço entre elas. No verso das chapas, aplica tintas de cores vivas, que se refletem nos elementos de trás e transformam a obra em um jogo com a luz. De outro lado, fica a fase mais recente, em que a cor foi abolida. Os trabalhos (que sempre recorrem ao relevo e merecem, por isso, o rótulo de pintura-objeto) são absolutamente negros, com formas geométricas recortadas e repetidas segundo um padrão. Talvez por esse ascetismo cromático – só o branco e o preto – a obra de Galvão possa parecer excessivamente cerebral. E é para evitar esse equívoco que ele procura caracterizar suas posições.

Pura intuição – “Faço uma arte rigorosamente construída, mas apenas por pura intuição.” Isso significa que, para João Carlos Galvão, as obras visuais se destinam, ainda e sempre, à comunicação de uma emoção. “Elas têm de ser acima de tudo expressivas”, diz ele, enfatizando a última palavra. E essa convicção o leva a trabalhar de maneira absolutamente artesanal, o que à primeira vista até contraste com os resultados obtidos. Os quadros não nascem de um projeto desenhado, a não ser em termos bem gerais. O artista vai pessoalmente a uma pequena marcenaria vizinha à sua casa e, por acerto e erro, experimenta inúmeras folhas de madeira até obter as proporções que o satisfaçam. A própria escolha do material, aliás, em vez de algum outro industrializado, como o acrílico e o aço, parece significativa:

“A madeira é mais sensual. Sempre permite pequenas inperfeições. Para que evitá-las?”Na mesma medida, porém, em que Galvão – um artista bom e sério – defende o primado da intuição criadora (“Discordo quando falam por exemplo da minha disciplina”), ele não consegue esconder sua natural inclinação para a sobriedade. Assim explica seu atual uso de cor: “Meu negócio é apenas fazer uma estrutura plástica. O branco e o preto a revelam. As outras cores seriam como que uma roupagem – uma fantasia, um disfarce”.

Oliveo Tavares de Araújo
São Paulo - 1974




En Galvao esa voluntad de estilo se enfrenta com dos dimensiones expresivas originariamente distintas del constructivismo: la estesía de la textura y la dinámica de la acumulación. No por acaso su Homenage a Costigliolo agarra com tanta inteligencia el espíritu eminentemente dinámico (sin ser cinético) del constructivismo del maestro uruguayo. Las Acumulaciones de Galvao, hechas de pedazos de tamaño medio variable, a veces com sutiles diferenciaciones entre partes altas y bajas (como en la base curva de D), otras veces com proyecciones (A, o Gragoatá), establecen microcosmos de inagotable riqueza visual - una especiede madura respuesta neoconstructivista a la volupia "informal" de la superficie o de la textura. El recurso a la policromia, en los dos "paisajes" parisinos (Clignancourt y Chatelet), com su deliberado empleo de la relación figura/fondo, añade un nuevo cariz expresivo a esse arte sobrio pero no austero, sin duda una de las más fuertes presencias en el imperio, tan entrañadamente contemporáneo, del relieve en madera. Una armoniosa y selecta muestra conjunta de la vitalidad de lo abstracto en el arte joven de Brasil.

José Guilherme Merquior
Montevideo - 1981





DEUX MISES EN RELIEFS POUR GALVÃO


1) Nous considérons d'habitude que l'artiste est un etre imprégné de mystère. Il possède un don. Un talent particulier. Une manière unique de percevoir les choses, de recréer les formes. Nous voyons dans l'artiste une idole. Celui ou celle que nous aurions aimé être. La plupart du temps, l'artiste ne se prend pas pour tel.

Galvão est un artiste qui n'est pas en quête de l'art dans le but de créer un langage singulier, qui le distingue des autres hommes. Il ne cherche pas non plus dans les mathématiques ou la géométrie, dans les concepts ou les traités, des thèses pour dévoiler, aux yeux du monde, les particularités que seul l´artiste – et, partant, l´idole – possède.

Non, Galvão n'a jamais recherché l' immortalité des apparences. D´ailleurs, il n'a jamais poursuivi les apparences. En ouvrant les yeux, il a perçu la lumière – pour la première fois! Et ce fut ainsi... en percevant la lumière qu'il parvint à l'extraire et à la reproduire, tout d'abord sur la toile de tissu et ensuite sur le bois. C'est la lumière qui convoque Galvao à être un artiste.

Nous caressons l'illusion que les artistes parviennent à nous faire comprendre l'énigme de l'existence et que, par le biais de la création artistique, l'homme serait en mesure de faire face au défi de la découverte de la nature. Penchons-nous sur la ville de Rio de Janeiro, aux alentours de 1640: la construction sur le sommet d'une colline de l'église du Monastère de São Bento est amorcée. On peut y voir le plus beau de tous les paysages: la Baie de Guanabara – à cette époque, une véritable ::maternité:: de baleines de l'Atlantique sud, comme nous pouvons le constater dans les tableaux de Leandro Joaquim, remontant au XVIIIième siècle, exposés au Musée National des beaux-arts.

La nature est tellement éblouissante à cet endroit, qu'il fallait bien y bâtir une église qui puisse ::se comparer:: à sa majesté. Ainsi, les regards de nos ancêtres et le nôtre sont récompensés, à chaque fois que nous pénétrons dans l'église de style Manuelino et que devant les ornements de ses murs, nos pupilles s'enivrent en observant les volutes, les arabesques aux formes arrondies, les ondulations circulaires qui entourent les paons et les anges – animaux et êtres humains à qui le bois donne vie. L'image que nous conservons de la période baroque est la même que celle qui constitue le relief du Brésil: celle des courbes. Dans ce contexte, les constructions humaines cherchent à montrer à la nature (ou au Créateur lui-même) que la créature peut se comparer à leurs oeuvres.

Nous avons attendu l'avènement du Xxième siècle pour découvrir la création de formes sinueuses et sensuelles pouvant apparaître lors du tracé d'une ligne droite. Ou d'un carré. Nous imaginons fréquemment découvrir quelque chose que personne n'ait jamais vu auparavant. Pour nous rendre immédiatement compte que ce que nous voyons a déjà éte vu avant nous, sous telle ou telle facette, rendant de ce fait notre perception plus cohérente. C'est exactement ce qui este arrivé dans la lecture des textes critiques de Galvão (regroupés à la fin de cet ouvrage). Parmi ces textes, se trouve celui de Silviano Santiago, daté de 1985:

"Décroché du mur où il s'offrait à notre vue, l'ouvrage en relief assume également son "dos" et devient une sculpture. Lassé de ne se montrer que de profil, le relief tombe par terre, à quatre pattes, au sein de la galerie d'art, se présentant au regard du spectateur, sous tous ses angles. Le relief ne craint plus la lumière que le trahit derrière son dos quand on le regarde de face ou de loa lumière qui brille de tous ses feux sur son dos comme si c'était sa face. La sculpture enchevêtre les angles, tel un amant sans pudeur, assumant des formes différentes et s'adonnant à une série de strip-tease pour satisfaire la gourmandise du regard."

En effet, l'oeuvre de Galvao fait sienne l'espièglerie des petits anges baroques du monastère de São Bento et, dans un mouvement sinueux étonnant, nous invite à faire ce parcours du regard en zigzag, parmi les formes où les bois naturels et ceux revêtus de couleur font l'abstraction d'eux-mêmes pour devenir lumière. De véritables bains de lumière, de face, de profil. Ce n'est même plus le bois que nous voyons. Cê n'est pas la couleur no plus (il suffit de regarder les remarquables reliefs en noir pour comprendre). Ce que nous voyons, c'est la lumière qui émane et transparaît des cavités qui s'exposent, dans les entaillures, les rainures tridimensionnelles des reliefs de Galvão.

Galvão suit évidemment les tendances, les maîtres, les écoles. Dans son oeuvre, plus que logique ou signification, il donne naissance à ce qui bourgeonne, à ce qui se dénoue dans l'immédiat. Il y a une densité dans l'exécution des formes qui fait que l'assemblage des cubes devient effervescent; ils semblent se multiplier dans ses mains comme s'ils créaient la vie car ils connaissent leur bonheur – eux, les cubes – de pouvoir se liquéfier dans des incidences de luminosité.

Si Galvão a vu la lumière pour la première fois le jour de sa naissance, il nous échoit de renaître dans la lumière en compagnie de son oeuvre, à chaque jour.

2) "Il faut distinguer l'homme de son ouvre", Tel est l'énoncé de plusieurs traités qui décrivent les artistes, presque toujours nerveux, irascibles... mais également créateurs d'oeuvres d'art formidables. S'il s'agit là d'une règle, les exceptions peuvent survenir. Par conséquent, la fusion entre l'homme, l'oeuvre et la vie est également un phénomène plausible. Galvão est ainsi. Il parviente en même temps à faire des oeuvres et à faire des amis.

La porte de son atelier à Friburgo est toujours ouverte aux hommes mais également aux hannetons, aux mantes religieuses on aux tâche. Il prend un tronçon de bois et réinvente le tronc, comme si de concrétisme de lumière et de couleur dans ses sculptures. Galvão modèle les corps en formes concaves et convexes (à notre image). Ici et là des protubérances, des mouvements déconnectés ou des modulations rythmiques (semblables au battement cardiaque).

En regardant ses oeuvres, nous percevons les fentes, les crevasses, les formes arrondies qui se répandent à la surface et nous invitent au réconfort du regard, du toucher. Nous caressons doucement le bois du bout des doigts, nous laissons glisser notre regard au gré des ombres et des volumes – apparemment géométriques – nous incident car il s'agit là d'un miroir révélant l géométrie de nos corps. Puisque finalement c'est ainsi que nous sommes: nous sommes faits d'extrémités, de parties sinueuses, de modulations. ?En courbe, courbe, courbe, ma bien aimée ? Et ce que le corps invente le plus, ce sont les choses ailées?, écrivait déjà le poète Drummond... serait-ce le but de l'oeuvre de Galvão?

La sculpture, retirée de l'atelier et exposée à la galerie d'art est là, tentante. Elle conquiert et dévore le regard de son futur amour: l'acheteur qui séance tenante et sans atermoiements la conduira chez lui. C'est alors que se produit le miracle: la sculpture – considérée un objet si froid, distant, encerclé d'un code indéchiffrable de concepts – se trouve délivrée de tout voile et entretient un puissant dialogue avec son maître.

Les oeuvres d'art sont le reflet de l'artiste qui les créent, comme nous l'affirmions au premier paragraphe. Galvão est un des rares homo faber de notre époque à mettre la main à la pâte. C'est la raison pour laquelle ses sculptures nous donnent la même sensation, celle ressentie par les hommes de la Renaissance qui enjoignaient au marbre modelé, façonné et transformé en statue: ?Parla! ?. Notre renaissance se fait par le truchement de l'art parce que nous pouvons parler aux oeuvres, non pas à toutes les oeuvres mais à celles qui transforment le quotidien de notre foyer – là où nous nous abritons de l'amertume et du désespoir – en un espace de confort et d'apaisement pour notre esprit. Quand nous emportons chez nous une sculpture de Galvão, nous emmenons un ami.

Leonel Kaz
Paris - 2009